Durante décadas, melhorar os gráficos dos videogames significava aumentar a capacidade de processamento do hardware. Mais núcleos, mais memória, maior resolução, mais efeitos e placas de vídeo cada vez mais poderosas.
Essa lógica continua existindo, mas a inteligência artificial está adicionando uma nova possibilidade: em vez de obrigar o hardware a calcular absolutamente tudo em resolução máxima, parte do trabalho pode ser reconstruída ou gerada por modelos de IA.
É uma mudança importante na forma como os jogos são renderizados.
O que a IA realmente faz nos gráficos dos jogos?
Um dos exemplos mais conhecidos é o upscaling.
Em vez de renderizar um jogo diretamente na resolução final, o motor gráfico pode produzir uma imagem em resolução inferior. A inteligência artificial analisa essa imagem, informações de movimento e dados de outros frames para reconstruir uma versão mais detalhada.
O objetivo é chegar a uma imagem próxima da resolução mais alta sem pagar todo o custo computacional de renderizar cada pixel diretamente.
É nesse conceito que entram tecnologias como NVIDIA DLSS, AMD FSR e o QSSR da Sony.
DLSS ajudou a popularizar a renderização baseada em IA
A NVIDIA foi uma das empresas que mais ajudaram a popularizar esse conceito no mercado de games.
O DLSS usa inteligência artificial para reconstruir imagens em alta resolução a partir de dados renderizados em uma resolução menor. Com o passar das gerações, a tecnologia também passou a trabalhar com geração de frames e reconstrução de efeitos de ray tracing.
O DLSS 4.5 representa uma evolução dessa abordagem, utilizando modelos de IA mais avançados para Super Resolution e Ray Reconstruction, além de recursos de geração de múltiplos frames.
A AMD também aposta em machine learning
A AMD seguiu uma direção semelhante com suas tecnologias FSR.
A evolução mais recente do ecossistema da empresa passou a incorporar machine learning em diferentes etapas da renderização. O FSR "Redstone" reúne recursos de upscaling, geração de frames, regeneração de ray tracing e cache de iluminação.
Isso mostra como a IA está deixando de ser utilizada apenas para aumentar uma imagem.
Ela começa a participar de diferentes partes da construção da cena.
O PS5 também entrou nessa disputa
A chegada do QSSR ao PS5 mostra que a renderização baseada em IA não está restrita aos computadores mais avançados.
O Quick Spectral Super Resolution foi desenvolvido pela Sony em colaboração com a AMD dentro do Project Amethyst. A proposta é oferecer ao PS5 uma alternativa mais leve ao PSSR utilizado no PS5 Pro.
Segundo a Sony, o QSSR utiliza uma arquitetura de rede neural simplificada e uma implementação ajustada especificamente para o desempenho do PS5.
Marvel's Wolverine e Ghost of Yōtei foram os primeiros jogos anunciados com suporte ao recurso.
A IA também pode criar frames que não foram renderizados
Outra mudança importante está na geração de frames.
Em tecnologias como o DLSS Multi Frame Generation e o FSR Frame Generation, a inteligência artificial pode analisar os frames disponíveis e gerar imagens intermediárias para aumentar a sensação de fluidez.
O resultado pode ser uma taxa de frames muito maior.
Mas um frame gerado por IA não é exatamente a mesma coisa que um frame totalmente renderizado pelo motor do jogo.
Por isso, tecnologias de geração de frames precisam trabalhar em conjunto com técnicas de redução de latência e uma base de desempenho adequada.
Ray tracing também está sendo beneficiado
O ray tracing é outro exemplo de técnica que pode se beneficiar da IA.
Calcular iluminação, sombras e reflexos baseados em ray tracing pode ser extremamente pesado. Como nem todos os raios possíveis são calculados, os resultados também podem apresentar ruído ou imperfeições.
A IA pode ajudar a reconstruir informações que não foram diretamente amostradas.
O próximo passo é a renderização neural
O conceito de renderização neural vai além de simplesmente pegar uma imagem menor e aumentá-la.
A inteligência artificial pode passar a participar de diferentes etapas da construção visual de uma cena, ajudando com iluminação, materiais, sombras, reflexos e outros elementos.
Isso significa que os jogos vão ficar mais bonitos automaticamente?
Não.
A IA não elimina as limitações do hardware e também não transforma qualquer jogo em uma experiência visual de nova geração.
O resultado depende da implementação, do modelo utilizado, do motor gráfico, da resolução interna, da qualidade dos dados disponíveis e da forma como os desenvolvedores integram a tecnologia.
O jogador pode ganhar desempenho e qualidade ao mesmo tempo
É justamente essa possibilidade que torna a tecnologia tão interessante.
Com técnicas de reconstrução por IA, a relação entre qualidade gráfica e desempenho pode ficar menos rígida.
O jogo pode renderizar internamente em uma resolução menor, enquanto a IA trabalha para recuperar parte dos detalhes perdidos.
O futuro dos gráficos pode ser menos sobre força bruta
A principal mudança provocada pela IA talvez não seja simplesmente fazer os jogos ficarem mais bonitos.
É mudar a maneira como pensamos a renderização.
DLSS, FSR e QSSR mostram caminhos diferentes para utilizar inteligência artificial na reconstrução de imagens. Geração de frames amplia essa ideia. Ray Reconstruction e tecnologias semelhantes levam a IA para dentro do tratamento da iluminação.
A inteligência artificial, portanto, não está apenas entrando nos videogames.
Ela está começando a mudar a própria lógica por trás dos gráficos que vemos na tela.

